Neste dia 2 de julho, celebramos o Dia do Bombeiro, uma data que reconhece o trabalho de quem se dedica a proteger vidas, florestas e comunidades do avanço do fogo e dos danos ao meio ambiente. Mais do que uma homenagem, essa data nos faz lembrar o quanto essa profissão é construída com coragem, preparo e muito coração.
Minha caminhada como brigadista começou em 2016, depois de experiências na colheita e nas forças armadas. Sempre me identifiquei com atividades que exigem disciplina, mas foi na brigada que encontrei um propósito maior. No começo, a rotina era basicamente apagar incêndio, um foco aqui, outro ali, e logo surgia mais fogo adiante. Era como correr atrás do prejuízo o tempo todo, “enxugando gelo”.
Com o tempo, a gente entendeu que só o combate não bastava. Era preciso agir antes que o fogo começasse. Neste pensamento, demos início ao Programa Amigos da Floresta na Bahia e que hoje está presente também no Mato Grosso do Sul e em São Paulo. Passamos a visitar comunidades vizinhas, conversar, orientar, distribuir kits, ouvir. Muitos incêndios começam por falta de informação. Às vezes é um galho seco queimado no fundo do quintal, uma roçada mal programada, um lixo queimado no fim da tarde. Quando a gente chega antes, com diálogo e presença, o fogo nem chega a começar.
E quando digo que “a floresta é nossa”, não é força de expressão. Já vivemos situações em que o fogo ameaçava casas, famílias e rebanhos. Lembro de uma ocorrência em Água Clara onde a dona da fazenda, com criança pequena no colo, nos ligou desesperada. Já tínhamos passado por lá antes, em uma ação solidária, e ela lembrou da nossa equipe. A gente foi. Chegamos com o fogo praticamente na porta da casa. Fizemos o combate, resgatamos o gado, controlamos a situação. Quando tudo se acalmou, ela chorava de alívio. Esse tipo de experiência a gente não esquece. A gente se solidariza.
O ano passado foi um dos mais desafiadores. Houve combates que duraram mais de 30 horas, sob calor intenso, sem trégua. Mas seguimos porque sabemos que cada área preservada representa um passo a mais na direção certa.
Só aqui no estado, nossa equipe é formada por 140 brigadistas, gente das comunidades rurais, jovens que encontram na brigada a primeira oportunidade de trabalho, mas também um caminho de crescimento. Com treinamento, orientação e vivência, muitos se tornam profissionais completos, com certificações e experiência de sobra.
Também levamos educação ambiental para escolas. Porque a prevenção começa na base. Uma criança que entende os riscos do fogo e conversa com os pais sobre isso já está ajudando a proteger o que é de todos. E isso, pra mim, é construir futuro.
O fogo não respeita cerca, propriedade ou nome. Quando chega, só a união faz diferença. Brigadistas, produtores, vizinhos, todos do mesmo lado. Ser brigadista é saber que, mesmo exausto, coberto de fuligem, valeu a pena. E quando chego em casa e meu filho diz que sou herói, na verdade sei que somos todos heróis, cada um fazendo a sua parte.
A floresta é nossa. E cuidar dela é cuidar da nossa própria história.
Por Wellington Santos coordenador da Brigada de Incêndio da MS Florestal. Formado em Gestão de Segurança Privada e pós-graduado em incêndios florestas. Já atuou como coordenador de Segurança Patrimonial na Bracell, uma das maiores produtoras de celulose do mundo, trazendo mais de 18 anos de experiência em segurança corporativa, pública e privada.